Conversando com as estrelas

Fazia um tempo que eu não olhava para as estrelas, não admirava sua beleza e não pedia um conselho para elas. Esta noite resolvi sair e vê-las. O céu, por sorte, estava limpo. Em dado momento, questionei como estão as coisas lá em cima. E elas, sempre muito simpáticas, brilharam, me dizendo - mesmo sem falar - que tudo continuava na mesma.

Foi então que, naquele instante, percebi algo que vem fazendo sentido nos últimos dias: nem sempre a mesmice é algo ruim.

No espaço, algumas coisas podem ameaçar a paz de uma estrela. Pressão de radiação e de calor, escassez de hidrogênio, colapso gravitacional, buracos negros... Na terra, muitas coisas podem ameaçar a paz das pessoas. Guerras, fome, doenças, desastres climáticos, política... A matemática então é muito simples: nada nunca soará mais ameaçador do que a perda da mesmice.

A mesmice anda de mãos dadas com o conforto. Ela dá a certeza de que não há ameaça iminente. Ela confirma a alta probabilidade de amanhã estarmos aqui desfrutando, e muitas vezes reclamando, da mesma coisa. Quantas pessoas, em quantos lugares distintos, lutam para manter uma mesmice que já foi tirada delas? Quantas pessoas, em quantos lugares distintos, lutam pela chance de sair em segurança na rua? Quantas pessoas, em quantos lugares distintos, querem apenas olhar as estrelas, apenas fazer planos para o futuro, apenas questionar coisas óbvias?

Quando enfim me despedi das estrelas, voltei para casa sorrindo com um pensamento: o céu esta noite estava tão limpo! Nada mais parecia ameaçar a minha mesmice, e nem a mesmice das estrelas, a não ser o tempo e a certeza do finito.


VAN GOGH, Vincent. A Noite Estrelada. 1889. 1 óleo sobre tela, 73,7 x 92,1 cm. Localização: Museu de Arte Moderna (MoMA), Nova York.

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