Escrever é traduzir o mundo. Contar estória é descrever o passado. A diferença entre um e outro é clara e absoluta: o mistério não é saber narrar o fato, mas ter destreza de escolher de que maneira tornar o causo notável. O escritor faz malabarismo com as palavras. Se acrescenta uma vírgula, faz a coisa toda mudar de figura. Uma única reticência e a cabeça do leitor trava, dá voltas no mar como Odisseu querendo voltar para casa. As letras são medidas na régua. Se uma sílaba sobrar, ou se um fôlego faltar, vai tudo por água abaixo. Quem escreve vive agoniado. Se perguntando se seu trabalho vai prestar. Já com o contador não tem tanto aperreio. O importante não é o jeito, mas a façanha contada. Às vezes pode se perder na enciclopédia, mergulhar fundo em dicionário e tabuada, mas nada para causar efeito, esse é apenas o melhor jeito de tornar mais verdadeiros os fatos. Pode até não chamar nome, não ter afirmação dos entendidos, mas o prazer de viver o causo, transformá-lo em letras... Não...
Foto: Alane Moura (arquivo pessoal). Imagem do dia em que uma esperança pousou sobre o computador onde escrevi as minhas primeiras páginas. Sonho escrever bem as minhas primeiras letras, não desperdiçá-las ao vento e, ao mesmo tempo, tentar não torná-las tão óbvias. Ai, minhas pobres linhas tortas, à quem tanto zelo? Estas folhas são só pensamentos de uma pessoa igualmente torta, que há muito tempo tenta se endireitar. Se com poucas palavras ainda consigo falar, lembre-se que o mais importante no mais simples lugar costuma estar. No verso mais pobre, ou na primeira página, há lugar para florescerem todas as flores e renascerem todas as almas. Alane Moura, 01 de março de 2023.