15 julho, 2026

Anestesia

Eu odiava quando meu pai bebia cerveja nos finais de semana. Era sempre desagradável ver meu herói ali, submisso a um copo de bebida. Que alegria pode trazer algo que te tira os sentidos? Que felicidade há em perder-se da realidade aos pouquinhos?

O caso que quero narrar ocorreu em um final de tarde comum. Não me lembro bem qual o dia da semana, mas posso afirmar que não era sábado e nem domingo. Minha convicção vem da certeza do compromisso. Eu havia me arrumado para ir à faculdade. Tinha aula naquele dia.

Enquanto esperava o transporte, me deparei com um bêbado largado de qualquer jeito na margem da estrada. Ele estava suado, sujo e sem camisa. O olhar distante vagava sobre um ponto fixo do asfalto enquanto bebia mais uma lata de cerveja.

Perdi algum tempo me perguntando o que deveria ter acontecido até que entendi que nem sempre algo precisa mesmo acontecer. Todo os heróis cansam um dia. Uma cerveja, mesmo no meio da semana, precisava fazer algum sentido?

Afinal, quanta gente precisa de anestesia para viver nesse mundo? Quanta gente precisa de uma cervejinha, um cigarrinho ou uma festinha para se distrair... Faço parte apenas de um lado mais confuso da humanidade, a qual se embriaga de arte por medo de encarar outros vícios.

Como se a arte também não fosse viciante. Como se ela não envolvesse o perigo do desprender-se de si, da realidade, da vida... Não fujo a regra, ainda que ignore diariamente a mesma dúvida de um bêbado largado na pista: por quê?

Por que a cerveja?

Por que o cigarro?

Por que a festa?

Por que a arte?

Por que a vida?

Talvez faça das palavras dos experientes as minhas: só conhece o verdadeiro valor da existência quem luta por ela. Ao resto de nós resta despistar a realidade, anestesiar o nosso medo de perceber que somos ainda menores do que parecemos.

Logo o ônibus chegou, veio me resgatar. O bêbado ficou para trás assim como as minhas dúvidas. Meu pai também bebia cerveja nos finais de semana, mas agora compreendia a razão. Se a anestesia é o que nos resta é porque viver deveria ser suficiente para nos fazer amar a vida.


Um camaleão ama tanto a sua vida que se adapta a qualquer situação para perpetua-la. Sejamos mais como os camaleões e menos como nós mesmos. Fonte: acervo pessoal.

28 junho, 2026

"Achei que era um cachorro"

Muitas vezes, uma notícia fala mais do que a sua simples manchete...

Era uma madrugada fria e o dia havia sido difícil. Tudo o que queria era chegar em casa, deitar e sonhar com um futuro melhor. Ansiava por um tempo em que não precisasse desviar de motoristas folgados, buzinar para pedestres distraídos e absolver aquelas velhas queixas... Mas precisava aguentar. Era questão de sobrevivência.

Àquela hora, quando a cama quente parecia uma realidade próxima, a ansiedade aumentava. Mais alguns quilômetros e estaria pronto para descansar. O que jamais imaginava é que ali, no instante em que tudo parece caminhar para a normalidade, acontecem as coisas mais inusitadas.

Ao adentrar a rua deserta, não notou nada singular. O silêncio era natural, assim como a escuridão que pairava sobre as casas. As luzes dos postes mal iluminavam a estrada, mas mesmo assim ajudaram a perceber que algo estranho avançava em sua direção, pela calçada.

A princípio, vislumbrou o que pareciam ser dois cães de rua. Um mais a frente e o outro mais atrás. Diminuiu a velocidade e, quando o inesperado se projetou diante dos seus olhos, freou a moto. Um dos animais era, na verdade, uma criança.

A bebê, usando apenas uma fralda, engatinhava com a determinação de quem já aprendeu a lutar pela própria vida. Ao ver o rapaz, deixou a calçada e invadiu a pista. Ele olhou para os lados, a fim de achar respostas para o que via, mas não encontrou nada além do cão esperto, o anjo da guarda, ao lado da menina. Foi então que o choro de uma inocente fez com que o cansaço da jornada diária, e o estresse da correria, perdessem a prioridade.

Com o coração preocupado, mesmo tendo a mente fervilhante de dúvidas, gritou, clamou e pediu ajuda. Uma mulher da vizinhança acordou com o barulho. Quando abriu a porta, viu uma criança chorando, um cão e um motoqueiro desconhecido. Colocou a menina nos braços e propôs-se a ouvir a história do rapaz, ainda que tenha sido difícil acreditar no que ele dizia.

- Achei que era um cachorro.

- Mas uma criança sozinha, a esta hora, no meio da rua?

- Só não podia ligar minha moto e deixá-la aqui... Eu sou um ser humano!

Ela olhou a rua, depois o corpo gelado e trêmulo da menina... Quando deu por si, já estava no guarda-roupa, procurando entre as roupas da filha de seis anos algo quente para embrulhar a criança solitária. Os policiais que patrulhavam o perímetro também demoraram a acreditar na ocorrência, mas levaram a menina aos órgãos competentes. E o motoqueiro, vendo-a em segurança, pôde finalmente seguir viagem.

Para ele, o percurso seguiu repleto de dúvidas, mas no fim das contas... Aquela não era coisa que se via todos os dias. Esperava que a criança continuasse amparada, ainda que felizmente jamais se lembrasse do que lhe havia acontecido naquela madrugada fria.


Fonte da notícia: https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2026/06/28/achei-que-era-um-cachorro-diz-motoboy-que-salvou-bebe-encontrada-engatinhando-sozinha-durante-a-madrugada-no-es.ghtml. Acesso em 28 Jun. 2026.


16 fevereiro, 2026

Não escrevo, conto estória

Escrever é traduzir o mundo. Contar estória é descrever o passado. A diferença entre um e outro é clara e absoluta: o mistério não é saber narrar o fato, mas ter destreza de escolher de que maneira tornar o causo notável.

O escritor faz malabarismo com as palavras. Se acrescenta uma vírgula, faz a coisa toda mudar de figura. Uma única reticência e a cabeça do leitor trava, dá voltas no mar como Odisseu querendo voltar para casa. As letras são medidas na régua. Se uma sílaba sobrar, ou se um fôlego faltar, vai tudo por água abaixo. Quem escreve vive agoniado. Se perguntando se seu trabalho vai prestar.

Já com o contador não tem tanto aperreio. O importante não é o jeito, mas a façanha contada. Às vezes pode se perder na enciclopédia, mergulhar fundo em dicionário e tabuada, mas nada para causar efeito, esse é apenas o melhor jeito de tornar mais verdadeiros os fatos. Pode até não chamar nome, não ter afirmação dos entendidos, mas o prazer de viver o causo, transformá-lo em letras... Não tem outro que consiga.

E então? Escrever ou contar? Qual opção é a melhor? Pense, pois isso é opinião que depende do querer, da ambição, do caboclo. O que vale mais: prêmio pessoal ou admiração popular? Os dois têm sua relevância, ainda que no fundo a missão seja a mesma: provocar com a palavra!


Alane Moura é a moça que gosta de contar estórias. Foto tirada durante a escrita de "As andanças de Abdias Tenório" (2024). Fonte: arquivo pessoal.


09 janeiro, 2026

A primeira página

Foto: Alane Moura (arquivo pessoal).
Imagem do dia em que uma esperança pousou sobre o computador onde escrevi as minhas primeiras páginas.


Sonho escrever bem as minhas primeiras letras, não desperdiçá-las ao vento e, ao mesmo tempo, tentar não torná-las tão óbvias.

Ai, minhas pobres linhas tortas, à quem tanto zelo? Estas folhas são só pensamentos de uma pessoa igualmente torta, que há muito tempo tenta se endireitar.

Se com poucas palavras ainda consigo falar, lembre-se que o mais importante no mais simples lugar costuma estar. No verso mais pobre, ou na primeira página, há lugar para florescerem todas as flores e renascerem todas as almas.


Alane Moura, 01 de março de 2023.

O voo da andorinha

Foto: Alane Moura (arquivo pessoal).
Não é uma andorinha e não é minha, mas um dia apareceu na minha janela para me inspirar.


A andorinha voou para além dos montes,

foi buscar sozinha

a paz que pouco tinha.


A andorinha voou, mas nem devia.

A paz que a andorinha queria,

nunca esteve longe como parecia.


Mas a andorinha fez bem em voar.

Nos montes a andorinha tirou suas dúvidas.

A andorinha encontrou na jornada o seu lugar.

Que bem fez a andorinha em voar.


Alane Moura, 17 de abril de 2023.