Pular para o conteúdo principal

Postagens

"Achei que era um cachorro"

Muitas vezes, uma notícia fala mais do que a sua simples manchete... Era uma madrugada fria e o dia havia sido difícil. Tudo o que queria era chegar em casa, deitar e sonhar com um futuro melhor. Ansiava por um tempo em que não precisasse desviar de motoristas folgados, buzinar para pedestres distraídos e absolver aquelas velhas queixas... Mas precisava aguentar. Era questão de sobrevivência. Àquela hora, quando a cama quente parecia uma realidade próxima, a ansiedade aumentava. Mais alguns quilômetros e estaria pronto para descansar. O que jamais imaginava é que ali, no instante em que tudo parece caminhar para a normalidade, acontecem as coisas mais inusitadas. Ao adentrar a rua deserta, não notou nada singular. O silêncio era natural, assim como a escuridão que pairava sobre as casas. As luzes dos postes mal iluminavam a estrada, mas mesmo assim ajudaram a perceber que algo estranho avançava em sua direção, pela calçada. A princípio, vislumbrou o que pareciam ser dois cães de rua. U...
Postagens recentes

Não escrevo, conto estória

Escrever é traduzir o mundo. Contar estória é descrever o passado. A diferença entre um e outro é clara e absoluta: o mistério não é saber narrar o fato, mas ter destreza de escolher de que maneira tornar o causo notável. O escritor faz malabarismo com as palavras. Se acrescenta uma vírgula, faz a coisa toda mudar de figura. Uma única reticência e a cabeça do leitor trava, dá voltas no mar como Odisseu querendo voltar para casa. As letras são medidas na régua. Se uma sílaba sobrar, ou se um fôlego faltar, vai tudo por água abaixo. Quem escreve vive agoniado. Se perguntando se seu trabalho vai prestar. Já com o contador não tem tanto aperreio. O importante não é o jeito, mas a façanha contada. Às vezes pode se perder na enciclopédia, mergulhar fundo em dicionário e tabuada, mas nada para causar efeito, esse é apenas o melhor jeito de tornar mais verdadeiros os fatos. Pode até não chamar nome, não ter afirmação dos entendidos, mas o prazer de viver o causo, transformá-lo em letras... Não...

A primeira página

Foto: Alane Moura (arquivo pessoal). Imagem do dia em que uma esperança pousou sobre o computador onde escrevi as minhas primeiras páginas. Sonho escrever bem as minhas primeiras letras, não desperdiçá-las ao vento e, ao mesmo tempo, tentar não torná-las tão óbvias. Ai, minhas pobres linhas tortas, à quem tanto zelo? Estas folhas são só pensamentos de uma pessoa igualmente torta, que há muito tempo tenta se endireitar. Se com poucas palavras ainda consigo falar, lembre-se que o mais importante no mais simples lugar costuma estar. No verso mais pobre, ou na primeira página, há lugar para florescerem todas as flores e renascerem todas as almas. Alane Moura,  01 de março de 2023.

O voo da andorinha

Foto: Alane Moura (arquivo pessoal). Não é uma andorinha e não é minha, mas um dia apareceu na minha janela para me inspirar. A andorinha voou para além dos montes, foi buscar sozinha a paz que pouco tinha. A andorinha voou, mas nem devia. A paz que a andorinha queria, nunca esteve longe como parecia. Mas a andorinha fez bem em voar. Nos montes a andorinha tirou suas dúvidas. A andorinha encontrou na jornada o seu lugar. Que bem fez a andorinha em voar. Alane Moura, 17 de abril de 2023.

Recuse imitações

Agora colocaram na cabeça da gente uma ideia maluca sobre como calçar os pés. Mas quando vivia descalço, pegando frieira, não apareceu um sequer para dar remédio. A sandália era remendada com o prego que faltava na parede. Por isso o espelho caia e a praga vinha e reinava: mas o que é sete anos de azar para quem vive na falta? Depois de jovem, disseram: recuse imitações! Mas hoje é outro tempo, onde a boca sopra ao vento ideias de outras gerações. Faço o que me mandam e penso melhor pela cabeça dos outros. A marca não é apenas um nome, mas uma direção de desgosto. Onde anda a sorte? Na direita ou na esquerda do caboclo? O azar, eu sei, continua habitando o meio do povo. Por mim, penso: dentre os animais, os mais sábios são os descalços. Poderia ser o papagaio, mas ele só imita o que ouve falar. Nesse mundo, quem procura acha e quem acha se cala. Existem descalços sem opção e calçados com opinião formada. Mas, me diga então, onde isso vai parar? Talvez nos tribunais ou nos pés de gente ...

Saiba + "Meu caro Cético"

Capa do e-book: "Meu caro Cético" Design: Alane Moura "Meu caro Cético: cartas de uma vida religiosa" foi, antes de qualquer coisa, uma saga que começou nesse blog. Consiste em um conjunto de vinte e uma cartas (mais um prólogo, um epílogo e um conteúdo exclusivo), postadas ao longo do ano de 2024 e início de 2025, para divagar sobre a vida religiosa de dona Ciça Ribeiro. As cartas de cunho cristão foram enviadas a Cético, um personagem ateu, mas reza a lenda que elas foram muito apreciadas mesmo assim. Conforme disponibilizei essas cartas em formatos de livro físico e e-book, achei por bem retirá-las do blogue permanentemente. A minha ideia original era deixá-las com acesso livre, mas para a nova publicação tive que revisar novamente a ortografia e o conteúdo do livro, de modo que as versões impressas e digitais estão mais completas, bem melhores de se ler e de se apreciar. Clique nos links abaixo para acessar as lojas do livro físico (UICLAP) e do e-book (Amazon)....

Para narrar bem em primeira pessoa

Para narrar bem qualquer tipo de história, o autor precisa entender que não é a sua voz que deve prevalecer no enredo. Na verdade, ele deverá optar entre os diversos tipos de narradores para contar seu "causo" da forma mais inventiva e original possível. E uma dessas opções é o narrador em primeira pessoa, ou seja, um tipo de contador de histórias que vivencia toda a trama e que pode trazer um toque especial para a narrativa. Muitos não sabem que essa escolha pode ser determinante para o sucesso de toda uma obra. Em minha opinião, um dos pontos mais fortes de escrever uma narrativa em primeira pessoa é justamente a possibilidade de dar voz a um personagem da trama, ou seja, a alguém que não apenas narra, mas que também tem suas próprias vontades e que pode interferir diretamente no enredo. O narrador em primeira pessoa, entretanto, não deve de forma alguma ser como um retrato do próprio autor, alguém que é exatamente igual ou que tenha as mesmas opiniões que o criador da tram...