Muitas vezes, uma notícia fala mais do que a sua simples manchete... Era uma madrugada fria e o dia havia sido difícil. Tudo o que queria era chegar em casa, deitar e sonhar com um futuro melhor. Ansiava por um tempo em que não precisasse desviar de motoristas folgados, buzinar para pedestres distraídos e absolver aquelas velhas queixas... Mas precisava aguentar. Era questão de sobrevivência. Àquela hora, quando a cama quente parecia uma realidade próxima, a ansiedade aumentava. Mais alguns quilômetros e estaria pronto para descansar. O que jamais imaginava é que ali, no instante em que tudo parece caminhar para a normalidade, acontecem as coisas mais inusitadas. Ao adentrar a rua deserta, não notou nada singular. O silêncio era natural, assim como a escuridão que pairava sobre as casas. As luzes dos postes mal iluminavam a estrada, mas mesmo assim ajudaram a perceber que algo estranho avançava em sua direção, pela calçada. A princípio, vislumbrou o que pareciam ser dois cães de rua. U...
Escrever é traduzir o mundo. Contar estória é descrever o passado. A diferença entre um e outro é clara e absoluta: o mistério não é saber narrar o fato, mas ter destreza de escolher de que maneira tornar o causo notável. O escritor faz malabarismo com as palavras. Se acrescenta uma vírgula, faz a coisa toda mudar de figura. Uma única reticência e a cabeça do leitor trava, dá voltas no mar como Odisseu querendo voltar para casa. As letras são medidas na régua. Se uma sílaba sobrar, ou se um fôlego faltar, vai tudo por água abaixo. Quem escreve vive agoniado. Se perguntando se seu trabalho vai prestar. Já com o contador não tem tanto aperreio. O importante não é o jeito, mas a façanha contada. Às vezes pode se perder na enciclopédia, mergulhar fundo em dicionário e tabuada, mas nada para causar efeito, esse é apenas o melhor jeito de tornar mais verdadeiros os fatos. Pode até não chamar nome, não ter afirmação dos entendidos, mas o prazer de viver o causo, transformá-lo em letras... Não...