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Conversando com as estrelas

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Fazia um tempo que eu não olhava para as estrelas, não admirava sua beleza e não pedia um conselho para elas. Esta noite resolvi sair e vê-las. O céu, por sorte, estava limpo. Em dado momento, questionei como estão as coisas lá em cima. E elas, sempre muito simpáticas, brilharam, me dizendo - mesmo sem falar - que tudo continuava na mesma. Foi então que, naquele instante, percebi algo que vem fazendo sentido nos últimos dias: nem sempre a mesmice é algo ruim. No espaço, algumas coisas podem ameaçar a paz de uma estrela. Pressão de radiação e de calor, escassez de hidrogênio, colapso gravitacional, buracos negros... Na terra, muitas coisas podem ameaçar a paz das pessoas. Guerras, fome, doenças, desastres climáticos, política... A matemática então é muito simples: nada nunca soará mais ameaçador do que a perda da mesmice. A mesmice anda de mãos dadas com o conforto. Ela dá a certeza de que não há ameaça iminente. Ela confirma a alta probabilidade de amanhã estarmos aqui desfrutando, e m...

Diário de escrita #2: o brilho opaco das estrelas falidas

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Querido diário, Muito tenho pensando sobre a influência da escrita em minha vida. Não é nada especial, apenas pensamentos. Li em algum lugar que Machado de Assis nunca sobreviveu dos seus próprios livros. Soube que, para colocar o pão na mesa, ele tinha que se apoiar em outras responsabilidades. Longe de mim levantar tal comparação. Apesar de considerar rara a sua habilidade, nunca busquei influências em seus escritos. O caso dele me chama atenção apenas pela dúvida: como posso me manter escrevendo se a minha sobrevivência não depende disso? Em um mundo capitalista, parte dos artistas é meio suicida mesmo. Ao invés de investir no alimento do corpo, investimos no alimento da alma e pagamos o nosso preço. Não é dilema. Cristo viveu algo parecido. Era um homem dividido entre o trabalho de carpintaria e o ofício de ser Filho de Deus. Creio que pessoas premiadas com tal sensibilidade nasceram mesmo para ser esmagadas em um mundo assim. Talvez daí venha a nossa cruz, nosso pesadelo: por mais...

Retrato sobre a vida

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Num dia comum de trabalho, na parada de ônibus cheia, olho para o lado e vejo aquele letreiro: "A vida não espera". Fonte: arquivo pessoal. Era um prédio abandonado. Uma avenida movimentada. O centro do mundo moderno. O que antes deveria ter sido? Uma agência de seguros? Uma clínica? Uma biblioteca? Quem teve a ideia? Um sábio? Um tolo? Um poeta? Não sei. Num dia comum de trabalho, na parada de ônibus cheia, olhamos para o lado e vemos que a vida realmente não espera para acontecer. Alane Moura, agosto de 2026.

Diário de escrita #1: crise narrativa

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Querido diário, Havia me comprometido a lançar um livro ainda esse ano, mas está sendo difícil escrever nesses últimos dias. O esgotamento mental que precisei enfrentar nesses primeiros seis meses do ano de 2026 custaram caro demais. Não que antes disso estivesse vivendo um 'mar de rosas' no universo da escrita. Na verdade, minha crise narrativa começou desde a publicação de "As andanças de Abdias Tenório". Ainda que depois tenha publicado as cartas de "Meu Caro Cético", não posso garantir que elas foram escritas em minha melhor fase. Veja bem, não sofro por falta de ideias. Por Deus, a minha imaginação funciona bem até demais, tanto positiva quanto negativamente. Continuo tendo insights  até sonhando. O problema tem sido falta de paciência, e quem sabe de resiliência também, para vencer as adversidades que as estórias me apresentam. Possuo pelo menos três grandes projetos em mente, mas todos estão paralisados, aguardando minha atenção. Ao invés de focar nel...

Anestesia

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Eu odiava quando meu pai bebia cerveja nos finais de semana. Era sempre desagradável ver meu herói ali, submisso a um copo de bebida. Que alegria pode trazer algo que te tira os sentidos? Que felicidade há em perder-se da realidade aos pouquinhos? O caso que quero narrar ocorreu em um final de tarde comum. Não me lembro bem qual o dia da semana, mas posso afirmar que não era sábado e nem domingo. Minha convicção vem da certeza do compromisso. Eu havia me arrumado para ir à faculdade. Tinha aula naquele dia. Enquanto esperava o transporte, me deparei com um bêbado largado de qualquer jeito na margem da estrada. Ele estava suado, sujo e sem camisa. O olhar distante vagava sobre um ponto fixo do asfalto enquanto bebia mais uma lata de cerveja. Perdi algum tempo me perguntando o que deveria ter acontecido até que entendi que nem sempre algo precisa mesmo acontecer. Todo os heróis cansam um dia. Uma cerveja, mesmo no meio da semana, precisava fazer algum sentido? Afinal, quanta gente precis...

"Achei que era um cachorro"

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Muitas vezes, uma notícia fala mais do que a sua simples manchete... Era uma madrugada fria e o dia havia sido difícil. Tudo o que queria era chegar em casa, deitar e sonhar com um futuro melhor. Ansiava por um tempo em que não precisasse desviar de motoristas folgados, buzinar para pedestres distraídos e absolver aquelas velhas queixas... Mas precisava aguentar. Era questão de sobrevivência. Àquela hora, quando a cama quente parecia uma realidade próxima, a ansiedade aumentava. Mais alguns quilômetros e estaria pronto para descansar. O que jamais imaginava é que ali, no instante em que tudo parece caminhar para a normalidade, acontecem as coisas mais inusitadas. Ao adentrar a rua deserta, não notou nada singular. O silêncio era natural, assim como a escuridão que pairava sobre as casas. As luzes dos postes mal iluminavam a estrada, mas mesmo assim ajudaram a perceber que algo estranho avançava em sua direção, pela calçada. A princípio, vislumbrou o que pareciam ser dois cães de rua. U...

Não escrevo, conto estória

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Escrever é traduzir o mundo. Contar estória é descrever o passado. A diferença entre um e outro é clara e absoluta: o mistério não é saber narrar o fato, mas ter destreza de escolher de que maneira tornar o causo notável. O escritor faz malabarismo com as palavras. Se acrescenta uma vírgula, faz a coisa toda mudar de figura. Uma única reticência e a cabeça do leitor trava, dá voltas no mar como Odisseu querendo voltar para casa. As letras são medidas na régua. Se uma sílaba sobrar, ou se um fôlego faltar, vai tudo por água abaixo. Quem escreve vive agoniado. Se perguntando se seu trabalho vai prestar. Já com o contador não tem tanto aperreio. O importante não é o jeito, mas a façanha contada. Às vezes pode se perder na enciclopédia, mergulhar fundo em dicionário e tabuada, mas nada para causar efeito, esse é apenas o melhor jeito de tornar mais verdadeiros os fatos. Pode até não chamar nome, não ter afirmação dos entendidos, mas o prazer de viver o causo, transformá-lo em letras... Não...