Muitas vezes, uma notícia fala mais do que a sua simples manchete...
Era uma madrugada fria e o dia havia sido difícil. Tudo o que queria era chegar em casa, deitar e sonhar com um futuro melhor. Ansiava por um tempo em que não precisasse desviar de motoristas folgados, buzinar para pedestres distraídos e absolver aquelas velhas queixas... Mas precisava aguentar. Era questão de sobrevivência.
Àquela hora, quando a cama quente parecia uma realidade próxima, a ansiedade aumentava. Mais alguns quilômetros e estaria pronto para descansar. O que jamais imaginava é que ali, no instante em que tudo parece caminhar para a normalidade, acontecem as coisas mais inusitadas.
Ao adentrar a rua deserta, não notou nada singular. O silêncio era natural, assim como a escuridão que pairava sobre as casas. As luzes dos postes mal iluminavam a estrada, mas mesmo assim ajudaram a perceber que algo estranho avançava em sua direção, pela calçada.
A princípio, vislumbrou o que pareciam ser dois cães de rua. Um mais a frente e o outro mais atrás. Diminuiu a velocidade e, quando o inesperado se projetou diante dos seus olhos, freou a moto. Um dos animais era, na verdade, uma criança.
A bebê, usando apenas uma fralda, engatinhava com a determinação de quem já aprendeu a lutar pela própria vida. Ao ver o rapaz, deixou a calçada e invadiu a pista. Ele olhou para os lados, a fim de achar respostas para o que via, mas não encontrou nada além do cão esperto, o anjo da guarda, ao lado da menina. Foi então que o choro de uma inocente fez com que o cansaço da jornada diária, e o estresse da correria, perdessem a prioridade.
Com o coração preocupado, mesmo tendo a mente fervilhante de dúvidas, gritou, clamou e pediu ajuda. Uma mulher da vizinhança acordou com o barulho. Quando abriu a porta, viu uma criança chorando, um cão e um motoqueiro desconhecido. Colocou a menina nos braços e propôs-se a ouvir a história do rapaz, ainda que tenha sido difícil acreditar no que ele dizia.
- Achei que era um cachorro.
- Mas uma criança sozinha, a esta hora, no meio da rua?
- Só não podia ligar minha moto e deixá-la aqui... Eu sou um ser humano!
Ela olhou a rua, depois o corpo gelado e trêmulo da menina... Quando deu por si, já estava no guarda-roupa, procurando entre as roupas da filha de seis anos algo quente para embrulhar a criança solitária. Os policiais que patrulhavam o perímetro também demoraram a acreditar na ocorrência, mas levaram a menina aos órgãos competentes. E o motoqueiro, vendo-a em segurança, pôde finalmente seguir viagem.
Para ele, o percurso seguiu repleto de dúvidas, mas no fim das contas... Aquela não era coisa que se via todos os dias. Esperava que a criança continuasse amparada, ainda que felizmente jamais se lembrasse do que lhe havia acontecido naquela madrugada fria.

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